Correspondentes

Aqui estão reproduzidas as cartas trocadas entre dois amigos: uma adolescente e seu professor de Português, que ficava "louco" com os erros crassos que ela cometia. A troca de cartas começou quando ela estava com 13 anos e ele, devia ter uns 40. A amizade dura até hoje: ela tem 50 e ele quase 80. Mas a frequência diminui muito quando ela se casou, aos 20 anos. As cartas continuaram a existir, porém, com maiores intervalos.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Quarta carta

Esta carta aparentemente não tem data. Acontecia muito. E quando a Aluna percebeu, logo começou a numerá-las. Por isso sabe a ordem até os dias de hoje. Mas nesta carta, escrita num papel de seda e datilografada, (coisa rara porque o Professor - como ele mesmo revela no final - não gostava de máquinas de escrever, assim como nunca gostou de computadores tanto que nunca aprendeu a lidar com eles) o Professor coloca a informação sobre a data no corpo do texto. Ao longo das três páginas ele fez anotações à mão nas margens do papel. Conforme a transcrição de cada página vou colocar os trechos manuais em fontes e cores diferentes. Bem como as minhas observações. As cartas são um registro da história da época. Ele cita Nixon, a Guerra do Vietnã, Sartre, os hippies...à medida que formos avançando vou contextualizando como fiz com a referência que ele faz a "pessoas que comem carne humana".

Aqui, Brasília, às 8h00 (cedo pra burro!) de um dia que ainda está hesitante, entre chuva e sol. Na verdade, já estamos no dia 18 de um ano que, alçando o primeiro voo, já está embalando numa velocidade incrível. Veja, por exemplo: faltam apenas 28 dias para o meu aniversário, 44 para o Carnaval, 90 para a Semana Santa, 92 para a Páscoa (eu tive uma aluna que por nascer na Páscoa recebeu o nome de Pascoalina. Você já pensou se chamasse NATALINA...Uf!), 230 para o dia da Independência (cuidado...Carmelo atacará de novo, de fanfarra e desfile), 339 para o Natal e seu aniversário (arrasta pé "quente" - desta vez não perco) e, finalmente, o começo de tudo novamente.
Como você pode observar, o tempo corre.
Aliás, essa é uma observação que todos fazem, sem entretanto se aperceber do erro que ela insere. Não é o tempo que voa, corre, etc..., somos nós que, ou queremos fazer tudo antes do tempo certo (e ficamo lamentando que os dias estão custando para passar, ou somos muito devagar e fazemos tudo depois do tempo certo). PENSE NISSO (Observações filosóficas retiradas do caderno da vida por Professor etc).
O importante, minha cara, é:
Fazer tudo sempre...fazer mesmo, mas sempre nas horas certas. E ser correto e coerente com as coisas naturais, com as pessoas e com o próprio mundo. Não se deixar vergar por imposições alheias, mas também não querer ser o dono da VERDADE.
Querida ALUNA
Acabo de receber a sua 3ª carta. Momentos antes, eu havia colocado no correio a acarta coletiva para você, S., E. e N., endereçada para a casa da S.
Conforme lhe disse, aí em São Paulo, recebi a sua segunda carta. Não tenha o menor receio de que as suas cartas possam me aborrecer. O que iria me aborrecer muito, seria uma falta prolongada de notícias suas. Veja: o correio já é contra nós a sua carta, colocada dia 10, somente chegou dia 18...e, assim mesmo, colocando o código postal direitinho), se, por outro lado, a gente não escrever logo, aí, as coisas se complicarão ainda mais, né? Vocês não podem se subestimar. Nada do que você diz, pode ser cansativo. Afinal, foram apenas 4 folhas e meia. Tenho lido tanta bobagem, o dia todo, em jornais, revistas e outros papéis, que, quando recebo as cartas que eu espero, não só não me canso de lê-las, como de relê-las. E, afinal, quando a gente se comunica com as pessoas que se afinam conosco, sempre estamos apreendendo alguma coisa e tirando proveito dela. (fim da página 1)

(manuscritos) Aluna: Você já ouviu o último LP do Roberto Carlos? Que coisa linda não? Experimente analisar a letra de A Distância.

Quanta coisa eu gostaria de aprender ainda. Quanta coisa que eu não sei. A Universidade da vida tem me ajudado bastante. Mais mesmo que as Escolas que eu ensinei. Mas o mais importante que eu deveria saber: eu já descobri. Jamais saberei quanto tempo ainda terei para saber das coisas. Isso sim é sufocante.

(página 2)
Realmente, OUVIR não é sinônimo de CONCORDAR.
Os nossos sentidos foram criados para desenvolver, cada um, uma função certa e determinada. Os ouvidos têm a finalidade de fazer com que as pessoas sintam as manifestações exteriores. Hoje, já se fala em poluição sonora. A poluição existe sim, mas para todos os sentidos (visão, olfato, etc...) Não quero dizer, entretanto, que não devamos senti-la. Devemos, isto sim, sentir tudo o que está errado, para que possamos combater. Até para poder DISCORDAR, é importante saber OUVIR. Às vezes, logo às primeiras palavras dos outros, vamos percebendo que as pessoas estão em outro mundo...que jamais iremos concordar e etc....interrompemos e nos damos mal, porque não houve tempo para colocar em funcionamento a máquina cerebral, que iria dizer, se poderíamos ou não CONCORDAR. A mera concordância com tudo, também é ineficaz. Revela apenas uma negligência nossa. É o comodismo falando mais alto. Fico satisfeito em saber que você já entendeu isso, pois é muito mais importante para a sua vida e formação futuras. Quanto à sua correspondência com a E., que já foi por água abaixo, eu espero que ambas já tenham se refrescado (as cucas andavam muito quentes e até que essa água veio bem), e continuem novamente, onde haviam parado. É bom também saber que a E. emitiu dois juízos de valor a seu respeito (para pior e, depois, para melhor). Ela lhe serviu como um termômetro que lhe media a exteriorização, em relação á Humanidade;.

Aluna! Achei genial o seu diálogo com o Diário. É isso mesmo. É isso aí. Quando a gente está cheia, deve desabafar. Foi o que você fez, com o diário. E ele, se for sincero, representa a sua consciência. É...é isso aí, menina. Você é bem consciente. Eu jamis me enganei. Além disso você é bastante autêntica. Afinal, como não ficar agressiva, quando a gente sofre pressão psicológica, mental, visual, auditiva, olfativa o dia todo. Os homens, geralmente os homens, de manhã, a primeira coisa que fazem é ler o jornal (Guerra do Vietnã, guerrilhas, massacres, bombardeios, assaltos, ludibriação, inflação, terremotos, enfim, sangue...má-fé...prostituição...debilidade...loucura. Como resistir a tudo isso, sem se impressionar. Como descarregar tudo, a não ser agredindo também. A não ser que consigamos nos alienar. Mas e daí? Os hippies são alienados, mas também não constroem NADA. Isso mesmo que você ouviu - NADA.
Eu até que a achei muito CALMA e SEGURA de SI. Você, realmente, fez as pazes com o mundo. Agradeço a confiança que você deposita em mim, deixando que eu possa interferir. Creia que eu somente farei isso, em último caso. Sempre tive por norma (não a servente do colégio...IRRA!) não interferir, desnecessariament5e na vida dos meus alunos. Mesmo em aula, sempre permiti (...) (fim da página 2)

(manuscritos) E a C.? Cala-te boca! Escapou-me o seu nome. Ah!Ah!Ah!

Oi, Aluna! Que você achou daquela música do Roberto Carlos que diz: "MAS AGORA EU SEI O QUE ACONTECEU"

(página 3)
(...) que todos fizessem o que bem entendessem. Por esse motivo fui até duramente criticado. É aquele negócio: todo mundo acha que está certo. Os outros (professores) acham que eles é que andavam certos, desconhecendo a existência dos alunos, como amigos. Eles talvez achem que alunos, são apenas alunos e devem ficar nessa posição9. Eu não acho, nunca achei, e não vou mudar. Os meus melhores amigos sempre foram os meus alunos. Alguns alunos, também me criticam pelo excesso de liberdade. Sabe...ALUNA...eles não percebem que a LIBERDADE que eu dou é controlada pelo espírito de responsabilidade que eu exijo de todos. Daí o porquê de eu não interferir. Somente em casos extremos.

A 3ª A vem reagindo.

Você falou na Ene. Como vai ela? Gosto muito dela. Pena que ela não tenha aprendido a escrever, né? Lembra-se da Lne? Mesmo caso. E assim, tantos outros, né? O MOBRAL AINDA NÃO CHEGOU POR AÍ? Ou será que é preguiça. É verdade que a tarifa postal aumentou para 0,40. Alguma coisa existe.

Achei a sua mãe muito legal. Não poderia ser diferente. Está explicado porque você é tão bacana. Vocês se entendem muito bem. Além disso ela é uma professora. Assim você estará garantida em sua formação, pois vai apre4ndendo e vai se formando com ótima orientação. A minha esposa também gostou muito dela e manda-lhe recomendações. Aliás, se você não sabe, a minha esposa também gosta muito de você. Acha que você é BONITA e INTELIGENTE. 
Numa outra carta, vou dedicar algumas linhas a sua cachorrinha que faleceu. Mande-me dizer o seu nome e dê características dela.

JEAN PAUL SARTRE é GÊNIO.
Não contestarei o que ele disse. Mas...
Nós temos opção. E nisso ele tem razão. Podemos optar, livremente por tudo. Até por ficarmos sós e sem desculpas. Mas, a verdade é que a solidão não deve ser INTERIOR. Exteriormente podemos ficar sozinhos, mas interiormente não devemos. O vazio mental é tão negativo, que até dormindo, muitas vezes, pensamos, convivemos com as pessoas, revemos fatos e situações, despertamos nossas vontades e intenções e acordamos bem ou mal dispostos.

Assim, ALUNA, saiba que quando tudo nos faltar, quando tudo nos isolar ou quando nós mesmos nos isolarmos, a não ser que estejamos loucos, o nosso interior ainda terá muitas situações positivas para serem lembradas e recordadas. E recordar é VIVER. E SER LIVRE È TÃO IMPORTANTE COMO VIVER.

Um abração

Professor

(parte manuscrita) O Nixon parece que não se toca, né? 

Agora já existe até gente que come gente. O pior é que todo o mundo anda falando nisso. (penso que ele se referia à notícia sobre um acidente de avião que caiu na Cordilheira dos Andes, cujos sobreviventes se alimentaram da carne dos outros passageiros mortos. Na época, não havia internet e as notícias demoravam a chegar. O acidente havia acontecido em outubro de 1972 mas provavelmente somente em janeiro foi divulgado de que forma os sobreviventes sobreviveram.) http://pt.wikipedia.org/wiki/Voo_For%C3%A7a_A%C3%A9rea_Uruguaia_571

PS. Sou péssimo datilógrafo. Não repare nos erros, pois não tive tempo para a correção.


Terceira carta do professor - 21/01/1973

O professor costumava escrever as cartas em partes. Começava numa data e terminava em outra. Ia escrevendo como se fora um diário. Aos poucos a menina assumiu essa característica e também escrevia uma carta em vários dias.
Para facilitar a leitura eles numeravam as partes com números romanos.
Como disse anteriormente, a aluna não conseguiu resgatar todas as suas cartas. Apenas as de 1974 em diante. Portanto, até lá, vamos ter cartas do Professor, mas não as dela.
Vamos à terceira carta do Professor. Nesta ele coloca um de seus poemas que depois integrou o livro que a Aluna o ajudou a publicar em 2005. Na época (1973) sua mãe e suas colegas de escola acharam que a poesia era dedicada à ela. Ela também teve essa impressão. Em 2005 o Professor desconversou, disse que fizera o poema anos atrás para a filha mais velha, muito antes de conhecê-la. A Aluna não acreditou muito, mas ficou decepcionada. Sempre alimentara secretamente que sua amizade com aquele professor fugia dos padrões de normalidade e que ele nutria por ela um amor impossível. Sua mãe tinha uma visão mais cruel. Achava que ele era apenas um lobo em pele de cordeiro pronto para atacar a sua Chapeuzinho Vermelho. Quando ela fez 18 anos, os medos de sua mãe quase se confirmaram, porém, Chapeuzinho não era assim tão bobinha e com muito jogo de cintura driblou o Lobo Mau e manteve a amizade por muitos e muitos anos.....

Em resposta à de 2/01/1973

Brasília, 10/01/73
Querida aluna

1º Obrigado pelo "um cara bacana". Oba! Oba!
2º Meus pêsames pela cachorrinha.
3º Meus parabéns pelo seu irmão que se forma 3º Sargento da Aeronáutica. Viva!
4º Minha solidariedade pela sua tristeza em ver o seu irmão partir para o Rio Grande do Sul (chuff...chuff...)
5º A outra carta sua, eu demorei....mas respondi.
6º Na outra acarta eu lhe mandava os meus parabéns pelos seus 14 anos. De qualquer forma, eu renovo nesta (aqui ele desenhou uma notas musicais em alusão à música Parabéns a você)
Parabéns a você...nesta data feliz....
Muitas felicidades, muitos anos de vida....
Viva a Aluna! Vivaaa!
7º Se você tivesse guardado o pedaço de bolo não daria certo, mas você bem que poderia ter me mandado uma fotografia dele. Da mesma forma, você poderia me mandar uma carta-relatório contando tudo o que aconteceu.
7º (ele se engana e repete o algarismo) O arrastapé dos 15 eu não perco não, porque vai ser "quente".
8º A formatura eu também não perco. Tenho o pressentimento que eu vou ser eleito paraninfo, né. Hi! Hi! Hi! (infelizmente ele se enganou. A paraninfa da turma foi a professora de inglês). Vai ser aquele discurso. Quero ver todo mundo saindo a nado do auditório. Dessa vez, todo o mundo vai abrir o bocão.
8) (ele repete novamente o numeral, mas desta vez tira o ordinal) Você falou que vinha junto um diplominha, mas eu não recebi nada.
9) Abrace a turma toda, obrigado.
10) Perdi o endereço da E. Estou mandando uma carta para ela, para sua casa. Por favor, entregue para mim (na verdade isso não passava de um truque dele para aproximar as meninas que andavam um pouco estremecidas).
11|) Recebi um cartão da N.
12) E a S.? Gosto muito dela. Diga a ela para deixar de ser HUMILDE e me escrever logo.
13) Não gosto do número, então...
14) Abraços a sua família também.
Aluna,
Eu sinto muita saudade de todo o pessoal. É pena que só você tenha escrito bastante (2 cartas) ufa! !E um cartão) Ah!
Eu queria que vocês não perdessem o contacto comigo e dissessem tudo...,tudo mesmo que acontece. Da mesma maneira como você fez, quando ficou uma FERA.
Eu agora estou começando a ter mais tempo, e a medida do possível, vou respondendo tudo. Tudo mesmo, tá?
Novidades daqui.
1) Minha mulher entrou na Universidade Nacional de Brasília (que gênio! Havia apenas 35 vagas para o Curso de Comunicação para quase 3.000 candidatos). Se você quiser escrever para ela cumprimentando-a: (aqui ele coloca o nome completo da esposa e o endereço). Um estímulo sempre é bom, né?
2) Y.F.D., com 1 anos e 4 meses, começa a afalar e não para mais. São 12 quilos de confusão, todo o dia. (trata-se da sua filha mais nova, primeira do relacionamento com M.C., sua segunda esposa; ela já tinha uma filha com a primeira que tinha praticamente a idade da segunda esposa).
3) Estou lecionando DIREITO PRIVADO no Centro Universitário de Brasília.

Aluna!

se você encontrar com a E. diga-lhe que me escreva com urgência e pergunte-lhe se ela recebeu a minha outra carta.
Se você encontrar com a N., diga-lhe DOM ARIGATÔ KOSÁI MASTÁ (escrevi como se pronuncia!). A Fu-Man-Chú é bacana mesmo. Acaba de me mandar um cartão lindo.
Eu vou escrever para ela logo mais.
Se você encontrar com C....fuja.
Se você encontrar com o R., procure observar se ele já melhorou de saúde. Do contrário saia correndo, pois ele de vez em quando morde.
Se encontrar como super-D., observe se ele já cresceu.
Se encontrar com a S (com i no final), pergunte como ela vai, e me diga você mesma, já que ela não escreve.
Se encontrar com o M.A., procure saber por que ele foi expulso da Igreja.
Se encontrar com a S., diga-lhe que...espere aí...deixa que eu mesmo digo, tá!
e se você se reencontrar com a L. M., diga-lhe tudo o que ela quiser ouvir. Diga-lhe mais o seguinte:

Qual de nós?

Um dia ficaremos sós.
Um conhecerá um mundo novo.
O outro será apenas alguém do povo.
Mas! Qual será de nós?

Se eu for o primeiro a partir,
levarei seu sorriso de criança.
Será a mais doce lembrança
do mundo que eu quero atingir.

Um sorriso que descansa
e em tudo se assemelha
a um botão de rosa vermelha.
Uma pureza, uma graça, uma esperança.

Levarei comigo o seu olhar
Carinhoso, atento, expressivo.
às vezes quito, em outras ativo.
Mas sempre buscando me encontrar.

Um olhar que orienta
Nova filosofia de vida
Mais útil, mais certa e sentida
e em ritmo que sempre aumenta.

Levarei comigo a saudade
de um gostoso passado,
do tempo em que fui amado,
com intensa realidade.

Será o evocar ais autêntico
da nossa felicidade
da nossa grande amizade
do nosso ideal tão idêntico.

Mas se for diferente,
você partir e eu ficar,
Eu nada terei a lembrar,
pois restará o pranto somente

No meio do povo, serei apenas gente.
As crianças não mais me sorrirão.
Os botões de rosa fenecerão
e aos olhos dos outros, serei indiferente.

A saudade será do futuro
Onde tudo será diferente
onde nos reencontraremos novamente
e até Deus será menos duro.

um abração,

Professor.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Segunda carta

Em 2005, o Professor e a Aluna se encontraram em São Paulo. Ele queria que ela o ajudasse com um projeto sobre um livro de poesias (algumas até poderão ser vistas reproduzidas em suas cartas porque ele as escrevera na época da correspondência). Foi quando ela "sequestrou" as cartas dela que estavam com ele. Só que faltam muitas. As primeiras, escritas entre 72 e 73, talvez o melhor período, ele não encontrou. Por sorte ela conseguiu resgatar as de 74 em diante. Por essa razão, vocês verão muitas e muitas cartas dele para ela, sem as respostas. Mas quando 1974 chegar, será possível intercalar as cartas dele com as dela, senão todas, pelo menos a maioria. Uma curiosidade: ele costumava escrever em folhas de papel de seda, tinha uma letra bem miudinha; gostava de intercalar parágrafos escritos em azul, ora em vermelho, ora em preto. Ela o imitava. Desenhavam caricaturas, enfim, tentavam exprimir seus sentimentos de todas as maneiras possíveis. Lembrem-se: estamos falando de uma época em que não havia Internet, scanners, nada. Apenas um papel em branco, uma caneta na mão e seus pensamentos e sentimentos loucos para se transformarem em palavras e palavras e palavras....Nesta carta ele explica por que incentivava seus alunos a se comunicarem por meio de cartas, mesmo estando próximos. E porque teve início a correspondência entre os dois. Boa leitura!

Brasília, 4/1/1973

Querida Aluna

Engraçado como as pessoas se atêm em certas datas sociais, como se ficassem impossibilitadas de agir, senão nessas oportunidades. É o caso das festas de fim de ano. De repente, aquela euforia gráfica, a enxurrada de cartões, quase que obrigatórios. Eu mesmo, expedi várias centenas. Foi um trabalhão para a minha secretária. As pessoas que durante o ano todo mantinham-se equidistantes, reaparecem através do tradicional: "Feliz Natal e um próspero Ano-Novo", como que vinculadas a esse chavão, durante vários anos. Eu mesmo tenho um primo que, por medida de economia mandou, há algum tempo atrás, fazer cartões em grande quantidade. E, todo ano recebo dele, o mesmo cartão, a mesma mensagem estereotipada. Mas...ele nunca se apercebeu que os anos vão passando...o mundo vai mudando...a moda vai criando e a mentalidade vai se reformulando.
Como se falar em Feliz natal quando o genocídio continua no Vietnã...como se pode pensar em felicidade, quando só vemos tragédias nos jornais, aumentando cada dia mais...como se pode falar em natalidade, quando justamente nos dias das festas natalinas aumenta o índice de criminalidade e mortalidade. E o Ano-Novo?
Cada Ano-Novo que surge, nós ficamos um ano mais velhos. Veja você mesma. Acaba de completar 14 anos (Dia de natal - acertei?) E ainda há pouco tempo eu a conheci uma garota com uma cara de crítica, às vezes até gozadora, envergando uns óculos que mal lhe cabiam no rosto, e ostentando, aos mal saídos 11 anos, o título orgulhoso de ginasiana. Agora você já é quase colegial.
Eu até diria que em inteligência, maturidade e desembaraço, você já chegou à fase colegial há muito tempo. Mas chega de divagações digressivas!
Eu falava era do Natal; dos homens; da boa-vontade repentina e até da excessiva preocupação em remeter uma mensagem comunicativa (Feliz Natal e um Próspero Ano-Novo) bah! bah! como querendo provar que se está vivo.
Sabe até quem teve essa preocupação inútil? NIXON. Esse mesmo que mandou bombardear uma cidade com seus hospitais, suas escolas, suas crianças, seus lares, suas famílias e suas igrejas e templos até o extermínio.
deixa pra lá o furioso.
Mas a verdade é que o que vale muito é a comunicação espontânea e não a feita em momentos esporádicos. Foi por esse motivo que eu sempre me preocupei em fortalecer a comunicação entre os meus alunos. Não ensinando como se faz, mas estimulando-os a fazê-la. Porque para que a comunicação seja perfeita, não basta que se tenha vontade ou obrigação de fazê-la, mas é preciso que se tenha coragem e sinceridade ao fazê-la. e ainda, por esse motivo foi que eu iniciei aquele trabalho de cartas entre pessoas, embora presentes. Foi para que vocês, quando estivessem longe, ou definitivamente separadas, não perdessem a amizade e o contato.
Um grupo tão capaz e inteligente como o de vocês, deve e merece uma comunicação recíproca entre os seus componentes. Você deve sentir, agora, que já não estou tão frequente entre vocês, a minha falta, na mesma proporção que eu sinto de vocês. é terrível, mas pode ser amenizada, né? Bastaria uma carta ou um simples bilhete por semana. Mas ao invés, eu não recebo nada por semana. Nem de você nem da S., da E., da N., para falar apenas nas que já me escreveram.
ATENÇÃO! Acabo de receber o seu cartão de Boas-Festas. Que bacana!
A falta de comunicação faz-me imaginar a prisão em que me encontro. Digo prisão porque realmente a minha vontade está presa a este meu gabinete de trabalho. E eu gostaria que ela estivesse solta, manifestando-se junto aos meus alunos, aos meus reais amigos.
Mas eu tenho, necessariamente, que continuar aqui, ao menos este ano.
E a C.? o R.? a  S., o Super D e tantos outros? Sumiram?
Você tem mantido contato com a S. e com a E.?
Nunca as perca de vista. São pessoas espetaculares como você também o é. São gente, entendeu? São Humanas? São bacanas.
Cada vez que eu converso com a S., mais eu fico emocionado e impressionado. Ela transpira sensibilidade. É uma pessoa ultra-sensível e que certamente deverá ganhar, futuramente, muito destaque. Gosto demais da sua humildade. Gosto demais dela.
A E. é gênio. Fora de série mesmo. tenho por ela uma admiração especial. O que ela faz ou escreve é bonito demais. É genial. Ela nunca diz: sugere. Ela nunca transmite o que quer; deixa sempre que os outros façam de suas palavras um instrumento de satisfação. Por esse motivo é que usa tantas reticências. Ela é como  gente gostaria que ela fosse. É brilhante e polida. Inteligente e bonita! Educada e literária. se ela continuar sempre assim...será sempre uma pessoa genial. Acontece, porém, que nunca mais me escreveu. E eu fiquei frustrado em relação a ela.
Se você mantém correspondência com ambas, diga para elas seguirem o seu exemplo e continuarem a me escrever.
Aluna!
O que eu falei das mensagens de Natal, não vale para você. Sabe por quê? Porque você sempre foi espontânea e nunca esperou que Cristo nascesse para desejar felicidade. Acredito que isso é um hábito que você adquiriu quando nasceu.
de qualquer forma, muito obrigado pelo cartão...pela lembrança...por ser minha amiga...por ser uma querida ex-aluna e por ser você, você mesma.
Até de repente com outra carta. Recomendações a seus pais.
Professor

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Primeira carta

O Professor havia sido transferido para Brasília. Tivera de escolher, ou melhor, fora obrigado a escolher entre o parco salário de professor de português numa escola estadual em São Caetano do Sul (SP) e um alto cargo num ministério em Brasília. Embora ele afirme que não foi o dinheiro que o motivou, a verdade é que, mesmo reclamando muito por ter de  "abandonar" suas alunas prediletas, ele foi. E para aplacar a saudade, incentivou que as meninas escrevessem cartas, muitas cartas. Ele disse que responderia a todas. de fato, ele também escreveu bastante. Naquela época não havia Internet, uma ligação telefônica interurbana era difícil e impraticável além de cara. E o Correio era uma lástima. Mas, bem ou mal, as cartas acabavam chegando, às vezes duas ou três ao mesmo tempo.
Alguns nomes foram trocados para manter a privacidade dos envolvidos. Doravante o Professor será assim designado e a menina será a Aluna. Divirtam-se!


" Engraçado como as distâncias, às vezes, desaparecem repentinamente. Ontem à noite eu estava no Rio de Janeiro; hoje pela manhã, em São Paulo; à tarde em Brasília e agora em São Caetano do Sul. Exatamente, em São Caetano do Sul com sua carta....com você.
É incrível, mas eu estou com você novamente. Vendo você numa garota escolar que passa por mim na rua. Eu sempre tive duas manias irreparáveis: a primeira, observar ao máximo o comportamento dos seres, até mesmo dos inanimados; e a segunda, buscar uma comunicação com eles, até mesmo espiritual. Eu não consigo olhar, sem ver; nem ver, sem imaginar o interior das coisas. Eu não consigo falar, sem sentir (já entrei bem, várias vezes, por falar o que sentia, a quem não devia ou não estava preparado para ouvir); e não consigo sentir, sem reagir.
Eu olho, vejo, penso, sinto e reajo. Isso é uma rotina. Agora eu estou olhando a sua carta, estou vendo você; pensando no que você disse; sentindo uma imensa saudade e só posso reagir, reestabelecendo uma comunicação entre nós.

Brasília, 6 de Dezembro de 1972
Minha querida Aluna
Se você ficar satisfeita em saber, creia, sua carta chegou no momento certo. Aliás, elas sempre chegam nos momentos certos. Pena que nunca chegam.
Eu estava muito cansado de minhas viagens. Minha família houvera ficado em S.Paulo e estava me sentindo muito só. O meu trabalho, por si só, não era suficiente para modificar esse estado. Fico às vezes, dias inteiros despachando papéis (você sabe o que quer dizer isso? - Não queira saber nunca. É a burocracia, minha querida). É o que não devia ser. Outras veze4s, fico mergulhado numa montanha de papéis, cheios de palavras completamente despidas (que vergonha!) de conteúdo. E o que eu quero, não é nada disso. Eu queria estar, novamente, no meio de vocês. Ensinando, às vezes; aprendendo outras, mas falando a mesma língua e observando as pessoas que têm o mesmo padrão de entendimento que o meu. Qualquer dia eu largo tudo e volto correndo. Aí, entretanto, eu não sei se vou encontrá-las novamente.
Eu estava assim, quando sua carta chegou. Por aí você pode imaginar a minha satisfação. Vou parar para continuar depois. 
Dia 10/12/1072
Foi bom mesmo eu haver parado. Eu já estava começando a falar somente de mim, quando eu devia estar falando de vocês.
Fiquei muito satisfeito em saber do seu reencontro consigo mesma. E, embora você não goste que outras pessoas interfiram em sua vida, eu vou me arriscar a fazê-lo.
Dia 13/12/1972
Nós sempre devemos ouvir. Ouvir até mesmo as pessoas mais humildes e de outra mentalidade que a nossa. Foi exatamente por esse motivo é que fomos dotados do sentido da audição. Entretanto, é muito difícil saber ouvir. É até mais difícil do que saber falar.
Isso não quer dizer que ouvir seja sinônimo de concordar.
Dia 14/12/1972
A vantagem de ouvir é a seguinte:
  1. Se concordamos, tivemos lucro porque conseguimos apreender alguma coisa com terceiros. Pudemos recobrar o caminho da razão e alcançar alguma coisa com mais facilidade;
  2. se não concordamos, fortaleceremos, provavelmente, o nosso ponto de vista contrário;
  3. se concordamos em parte e discordamos em outra, afinal, nos ajustamos.
 Dia 15/12/1972
Você, Aluna, sempre me pareceu uma garota de opinião. e de opinião bem formada. É claro que, apesar de sua genialidade e precocidade você de quanqleur forma não tem muita experiência na vida. Afinal de contas, são apenbas 13 aninhos que no NATAL se transformarão em 14 (não esqueci). As suas amigas, como você, têm as mesmas qualidades e a mesma inexperiência. É natural, portanto, qiue haja choques. Mas, nem preciso precisa virar UMA FERA
Dia 25/12/1972
Parabéns a você
Nesta data feliz!
Muitos anos de vida!
Etc....etal.
Dia 2/1/1973 
(no original ele continuou escrevendo 72 - NE)
A correria que esse final de ano provocopu amis o meu trabalho normal, fizeram com que eu não soubesse onde havia colocado a minha carta. reencontrei-a e vou mandá-la assim mesmo. Nunca rasgo o que escrevo.
Dia 31/1/1973
Aluna
A sua classe continua vencedo em matéria de carta.
Recebi: 3º D - sua, E., S., N., S. = 5
3º A - S. e C. = 2
Por enquanto somente escrevi para a E. (não sei o qie aconteceu com ela, pois não sei nem se recebeu a minha carta; para a N., idem) e para a S. (essa menina é espetraculçar. Não lhe conto o que ela me escreveu, mas sinceramente é espetacular). Vou escrever para ela novamente.
Um abraço
Professor
P.S. - Escreva novamente. Peça a S., E. e N. que me escrevam também.

EM LETRAS VERMELHAS (URGENTE)
S.O.S. (SOCORRO!)
MANDEM NOTÍCIAS COM URGÊNCIA.
NÃO ME DEIXEM SEM LER.
PROFESSOR
FELIZ ANO NOVO A TODOS OS SEUS
PROF.

NE - Na medida do possível as postagens obedecerão a estrutura original das cartas. Algumas vezes farei interferências com fonte diferenciada para situar melhor o leitor.